Modelo Fleuriet – Análises e Estratégias Financeiras

Cassio Crespo

Conselheiro | Head | Advisor | Mentor | M&A | Nexialista - Estratégia, Finanças e Governança

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Em um cenário empresarial marcado por incertezas e alta competitividade, compreender a saúde financeira de uma empresa é essencial para a tomada de decisões estratégicas.

Nesse contexto, o Modelo Fleuriet se destaca por adotar uma visão dinâmica da liquidez, oferecendo mais do que uma simples fotografia contábil: traduz a real capacidade da empresa de sustentar suas operações no curto e no longo prazo.

Mais do que responder à pergunta tradicional dos bancos, “se a empresa fechar, o que sobra para nós?” , o modelo desloca o foco para uma nova perspectiva: “como manter a empresa funcionando e honrando seus compromissos em dia?”.

Principais Características do Modelo Fleuriet

1. Base nos Demonstrativos Contábeis

O modelo utiliza dois documentos centrais da contabilidade: Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).

Balanço Patrimonial O balanço é reestruturado para refletir a dinâmica operacional da empresa, e não apenas sua posição estática. A análise distingue:

  • Contas financeiras – sem vínculo direto com a operação (caixa, bancos, aplicações).
  • Contas operacionais – ligadas ao ciclo produtivo (estoques, fornecedores, clientes).

Essa reorganização permite calcular três indicadores fundamentais:

  • Necessidade de Capital de Giro (NCG)
  • Capital de Giro (CDG)
  • Saldo de Tesouraria (ST)

Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) Complementa a análise ao considerar o impacto da geração de caixa operacional e da estrutura de financiamento. Permite avaliar:

  • Rentabilidade – fontes de receitas, custos e despesas.
  • Eficiência da gestão financeira – uso equilibrado de recursos próprios e de terceiros.
  • Endividamento – efeito das despesas financeiras sobre o equilíbrio de capital.

Necessidade de Capital de Giro (NCG)

A NCG surge diretamente do ciclo operacional — da aquisição de insumos ao recebimento das vendas.

  • Quanto maior a NCG, maior a dependência da empresa por recursos adicionais para manter a operação.
  • Isso aumenta o risco financeiro, pois expõe a empresa à necessidade constante de financiamento.
A análise financeira deve ser dinâmica, refletindo a evolução contínua do negócio, e não apenas uma fotografia estática. Michel Fleuriet

2. Componentes e Métricas Dinâmicas do Modelo

O Modelo Fleuriet faz uma reclassificação funcional das contas para extrair indicadores-chave:

  • Ativo e Passivo Circulante → divididos em cíclicos (operacionais) e financeiros (não-operacionais).
  • Ativo e Passivo Não Circulante → agrupados como Permanentes.

Os três indicadores centrais são:

Capital de Giro (CDG) – diferença entre Passivo Permanente e Ativo Permanente. Um CDG negativo indica alto risco por financiar ativos permanentes com recursos de curto prazo.

Necessidade de Capital de Giro (NCG) – diferença entre ativos e passivos cíclicos. Uma NCG positiva revela dependência de recursos externos.

Saldo de Tesouraria (ST) – diferença entre CDG e NCG. Um ST positivo indica geração de caixa suficiente para sustentar operações.

A combinação desses indicadores define seis perfis de liquidez e risco de curto prazo, permitindo diagnósticos estratégicos mais precisos.

3. Fundamentação e Aplicações Reais

Pesquisas acadêmicas e casos práticos demonstram a relevância do Modelo Fleuriet:

  • Varejo (B3) – empresas desse segmento mostraram que o modelo permite identificar tanto recuperação quanto fragilidades financeiras ao longo dos anos.
  • Empresas brasileiras de capital aberto – a maioria apresentou NCG e CDG positivos, mas o ST variou ao longo do tempo, refletindo oscilações de liquidez.
  • Tributação – empresas com maior liquidez tendem a adotar menor agressividade fiscal, evidenciando impacto além da contabilidade.

Valor Adicional e Ferramentas Práticas

  • Simulações em Excel, Power BI e IA – facilitam a aplicação, respondendo perguntas comuns: “Se há lucro, por que falta caixa?” ou “Por que estamos descapitalizados mesmo com crescimento?”.
  • O “Efeito Tesoura” — quando a NCG cresce mais rápido do que o CDG, ilustra o risco de expansão acelerada sem financiamento adequado, comum em empresas em rápido crescimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

Modelo Fleuriet como Instrumento Estratégico

Ao adotar uma visão dinâmica, o modelo permite:

  • Antecipar sinais de deterioração ou recuperação financeira.
  • Apoiar decisões estratégicas, ajustando o uso de capital próprio e de terceiros.
  • Dar clareza ao ciclo operacional, revelando riscos ocultos e oportunidades de eficiência.
Mais do que avaliar resultados passados, o Modelo permite antecipar riscos e oportunidades futuras. Michel Fleuriet

Conclusão

O Modelo Fleuriet vai além de um método de análise financeira: é uma ferramenta estratégico-operacional que conecta o curto prazo ao planejamento de longo prazo.

Em tempos de incerteza, sua aplicação ajuda empresas a:

  • Transformar dados contábeis em inteligência de gestão.
  • Avaliar a sustentabilidade de sua operação.
  • Tomar decisões mais assertivas diante de crises e oportunidades.

Mais do que perguntar “o que sobra se a empresa fechar?”, o modelo ensina a refletir: “como garantir que ela continue funcionando e pagando seus compromissos?”. Essa mudança de perspectiva faz do Modelo Fleuriet uma referência em finanças corporativas

Na sua visão, o Modelo Fleuriet é aplicável em qualquer empresa ou depende do setor?

Fontes e Referências

  • FLEURIET, Michel; KEHDY, Ricardo; BLANC, Georges. O Modelo Fleuriet: A Dinâmica Financeira das Empresas Brasileiras – Uma Análise Prática. 3ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.
  • ASSAF NETO, Alexandre. Estrutura e Análise de Balanços: Um Enfoque Econômico-Financeiro. São Paulo: Atlas, 2012.
  • MARTINS, Eliseu; GELBCKE, Ernesto Rubens; SANTOS, Ariovaldo dos; IUDÍCIBUS, Sérgio de. Manual de Contabilidade Societária. São Paulo: Atlas, 2010.
  • Artigos acadêmicos da Revista de Administração de Empresas (RAE/FGV) e da Fundação Dom Cabral, que trazem aplicações e análises práticas do modelo em empresas brasileiras.

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