Em um cenário empresarial marcado por incertezas e alta competitividade, compreender a saúde financeira de uma empresa é essencial para a tomada de decisões estratégicas.
Nesse contexto, o Modelo Fleuriet se destaca por adotar uma visão dinâmica da liquidez, oferecendo mais do que uma simples fotografia contábil: traduz a real capacidade da empresa de sustentar suas operações no curto e no longo prazo.
Mais do que responder à pergunta tradicional dos bancos, “se a empresa fechar, o que sobra para nós?” , o modelo desloca o foco para uma nova perspectiva: “como manter a empresa funcionando e honrando seus compromissos em dia?”.
Principais Características do Modelo Fleuriet
1. Base nos Demonstrativos Contábeis
O modelo utiliza dois documentos centrais da contabilidade: Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).
Balanço Patrimonial O balanço é reestruturado para refletir a dinâmica operacional da empresa, e não apenas sua posição estática. A análise distingue:
- Contas financeiras – sem vínculo direto com a operação (caixa, bancos, aplicações).
- Contas operacionais – ligadas ao ciclo produtivo (estoques, fornecedores, clientes).
Essa reorganização permite calcular três indicadores fundamentais:
- Necessidade de Capital de Giro (NCG)
- Capital de Giro (CDG)
- Saldo de Tesouraria (ST)
Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) Complementa a análise ao considerar o impacto da geração de caixa operacional e da estrutura de financiamento. Permite avaliar:
- Rentabilidade – fontes de receitas, custos e despesas.
- Eficiência da gestão financeira – uso equilibrado de recursos próprios e de terceiros.
- Endividamento – efeito das despesas financeiras sobre o equilíbrio de capital.
Necessidade de Capital de Giro (NCG)
A NCG surge diretamente do ciclo operacional — da aquisição de insumos ao recebimento das vendas.
- Quanto maior a NCG, maior a dependência da empresa por recursos adicionais para manter a operação.
- Isso aumenta o risco financeiro, pois expõe a empresa à necessidade constante de financiamento.
A análise financeira deve ser dinâmica, refletindo a evolução contínua do negócio, e não apenas uma fotografia estática. Michel Fleuriet
2. Componentes e Métricas Dinâmicas do Modelo
O Modelo Fleuriet faz uma reclassificação funcional das contas para extrair indicadores-chave:
- Ativo e Passivo Circulante → divididos em cíclicos (operacionais) e financeiros (não-operacionais).
- Ativo e Passivo Não Circulante → agrupados como Permanentes.
Os três indicadores centrais são:
Capital de Giro (CDG) – diferença entre Passivo Permanente e Ativo Permanente. Um CDG negativo indica alto risco por financiar ativos permanentes com recursos de curto prazo.
Necessidade de Capital de Giro (NCG) – diferença entre ativos e passivos cíclicos. Uma NCG positiva revela dependência de recursos externos.
Saldo de Tesouraria (ST) – diferença entre CDG e NCG. Um ST positivo indica geração de caixa suficiente para sustentar operações.
A combinação desses indicadores define seis perfis de liquidez e risco de curto prazo, permitindo diagnósticos estratégicos mais precisos.
3. Fundamentação e Aplicações Reais
Pesquisas acadêmicas e casos práticos demonstram a relevância do Modelo Fleuriet:
- Varejo (B3) – empresas desse segmento mostraram que o modelo permite identificar tanto recuperação quanto fragilidades financeiras ao longo dos anos.
- Empresas brasileiras de capital aberto – a maioria apresentou NCG e CDG positivos, mas o ST variou ao longo do tempo, refletindo oscilações de liquidez.
- Tributação – empresas com maior liquidez tendem a adotar menor agressividade fiscal, evidenciando impacto além da contabilidade.
Valor Adicional e Ferramentas Práticas
- Simulações em Excel, Power BI e IA – facilitam a aplicação, respondendo perguntas comuns: “Se há lucro, por que falta caixa?” ou “Por que estamos descapitalizados mesmo com crescimento?”.
- O “Efeito Tesoura” — quando a NCG cresce mais rápido do que o CDG, ilustra o risco de expansão acelerada sem financiamento adequado, comum em empresas em rápido crescimento.
Modelo Fleuriet como Instrumento Estratégico
Ao adotar uma visão dinâmica, o modelo permite:
- Antecipar sinais de deterioração ou recuperação financeira.
- Apoiar decisões estratégicas, ajustando o uso de capital próprio e de terceiros.
- Dar clareza ao ciclo operacional, revelando riscos ocultos e oportunidades de eficiência.
Mais do que avaliar resultados passados, o Modelo permite antecipar riscos e oportunidades futuras. Michel Fleuriet
Conclusão
O Modelo Fleuriet vai além de um método de análise financeira: é uma ferramenta estratégico-operacional que conecta o curto prazo ao planejamento de longo prazo.
Em tempos de incerteza, sua aplicação ajuda empresas a:
- Transformar dados contábeis em inteligência de gestão.
- Avaliar a sustentabilidade de sua operação.
- Tomar decisões mais assertivas diante de crises e oportunidades.
Mais do que perguntar “o que sobra se a empresa fechar?”, o modelo ensina a refletir: “como garantir que ela continue funcionando e pagando seus compromissos?”. Essa mudança de perspectiva faz do Modelo Fleuriet uma referência em finanças corporativas
Na sua visão, o Modelo Fleuriet é aplicável em qualquer empresa ou depende do setor?
Fontes e Referências
- FLEURIET, Michel; KEHDY, Ricardo; BLANC, Georges. O Modelo Fleuriet: A Dinâmica Financeira das Empresas Brasileiras – Uma Análise Prática. 3ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.
- ASSAF NETO, Alexandre. Estrutura e Análise de Balanços: Um Enfoque Econômico-Financeiro. São Paulo: Atlas, 2012.
- MARTINS, Eliseu; GELBCKE, Ernesto Rubens; SANTOS, Ariovaldo dos; IUDÍCIBUS, Sérgio de. Manual de Contabilidade Societária. São Paulo: Atlas, 2010.
- Artigos acadêmicos da Revista de Administração de Empresas (RAE/FGV) e da Fundação Dom Cabral, que trazem aplicações e análises práticas do modelo em empresas brasileiras.


