Custo de Capital é Estratégia: Como empresas devem se posicionar no Mercado Financeiro Atual

Cassio Crespo

Conselheiro | Head | Advisor | Mentor | M&A | Nexialista - Estratégia, Finanças e Governança

WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Custo de Capital, Indicadores Econômicos e Disciplina de Alocação

Durante anos, muitas empresas trataram juros como variável externa e finanças como função de suporte.

Esse modelo acabou.

Quando o custo de capital muda, a estratégia precisa mudar. E hoje ele mudou, de forma estrutural.

Decisões do Federal Reserve e do Banco Central do Brasil não afetam apenas o mercado financeiro. Elas redefinem:

  • Taxa mínima de atratividade
  • Estrutura de funding
  • Viabilidade de CAPEX
  • Ritmo de expansão
  • Avaliação de M&A
  • Valuation da companhia

Ignorar isso é fazer planejamento estratégico com premissas defasadas.

Posicionamento empresarial, hoje, é recalibrar a alocação de capital à luz de um novo regime de juros, inflação e risco fiscal.

Estratégia começa no custo de capital. Governança garante disciplina. Finanças transformam cenário em decisão.

Comece pelo macro – porque ele redefine seu WACC

O cenário global continua influenciado pelas decisões do Federal Reserve e pela política monetária conduzida pelo Banco Central do Brasil.

Para empresas, isso afeta diretamente:

  • Custo da dívida
  • Taxa mínima de atratividade (TMA)
  • Custo de equity
  • Avaliação de projetos
  • Decisão de M&A

Indicadores críticos a monitorar:

🔹 Juros

  • Selic e sua expectativa futura
  • Juro real (Selic – inflação esperada)
  • Curva longa (impacta captações estruturadas)

Se o juro real permanece elevado, projetos precisam entregar ROIC substancialmente acima do WACC para criar valor.

🔹Inflação

  • IPCA e núcleo de serviços
  • Expectativas do mercado

Inflação persistente:

  • Aumenta custo operacional
  • Pressiona capital de giro
  • Eleva incerteza na precificação de contratos

Empresas com baixa capacidade de repasse sofrem compressão de margem.

🔹 Atividade econômica

  • PIB
  • Produção industrial
  • Indicadores de consumo

Desaceleração econômica exige:

  • Revisão de CAPEX
  • Ajuste de estoques
  • Reavaliação de crescimento orgânico

🔹 Fiscal e risco-país

  • Dívida/PIB
  • Resultado primário
  • CDS 5 anos

Deterioração fiscal amplia prêmio de risco, encarece crédito e reduz liquidez sistêmica.

Riscos geopolíticos globais

Tensões envolvendo Irã e Estados Unidos elevam a volatilidade, pressionam commodities, fortalecem o dólar e contaminam expectativas inflacionárias. Em economias emergentes, o choque se transmite via câmbio, prêmio de risco e curva de juros. Nesse ambiente, liquidez e disciplina na alocação de capital deixam de ser cautela e passam a ser diferencial competitivo.

Matriz de decisão empresarial

Antes de qualquer movimentação financeira, a empresa precisa responder:

  • Qual é o objetivo do caixa? Liquidez ou retorno?
  • Qual é o horizonte do CAPEX?
  • O foco está em desalavancagem ou expansão?
  • Há necessidade de hedge cambial?

Sem essa clareza, decisões financeiras tornam-se reativas ao mercado.

Macro define o ambiente. Estratégia define a ação.

Estratégia financeira por perfil corporativo

🔹 Empresas conservadoras (preservação e resiliência)

  • Caixa majoritariamente em pós-fixados
  • Baixa duration
  • Redução de alavancagem
  • Proteção cambial quando aplicável

Foco: preservar liquidez e reduzir risco financeiro.

🔹 Empresas em equilíbrio

  • Gestão ativa de caixa
  • Avaliação rigorosa de CAPEX
  • Alocação seletiva em expansão
  • Diversificação de funding

Foco: crescimento com retorno ajustado ao risco.

🔹 Empresas em expansão estratégica

  • Estruturação de funding de longo prazo
  • Acesso ao mercado de capitais
  • M&A seletivo
  • Internacionalização

Foco: capturar assimetrias mantendo disciplina de capital.

Setores com relevância estrutural

Sob ótica macroeconômica:

  • Infraestrutura (projetos indexados, receitas previsíveis)
  • Energia (transição e estabilidade regulatória)
  • Empresas com forte geração de caixa e baixa alavancagem
  • Negócios com exposição internacional (proteção cambial natural)

Em ambiente de custo de capital elevado, qualidade financeira é diferencial competitivo.

Disciplina de capital: onde valor é criado (ou destruído)

O erro mais comum em ambientes de incerteza é confundir crescimento com criação de valor.

Na prática empresarial, isso se manifesta em:

  • CAPEX sem retorno adequado
  • Aquisições desalinhadas com estratégia
  • Endividamento excessivo
  • Giro de caixa mal planejado

Empresas que criam valor:

  • Mantêm ROIC consistentemente acima do WACC
  • Monitoram alavancagem
  • Ajustam investimento ao ciclo econômico
  • Reavaliam projetos conforme o custo de capital muda

Disciplina financeira não é conservadorismo. É governança.

Direcionamento prático para 2026

Com base nos indicadores atuais:

  • Juros reais ainda relevantes → desalavancagem pode gerar retorno implícito superior ao CAPEX marginal.
  • Crescimento econômico moderado → expansão seletiva.
  • Risco fiscal exige cautela em estruturas longas de dívida.
  • Diversificação geográfica reduz dependência sistêmica.
  • Caixa é opcionalidade estratégica, não ineficiência.

Liquidez hoje é vantagem competitiva amanhã.

As escolhas reais

Em muitos casos, desalavancar pode gerar retorno implícito superior a novos investimentos marginais.

Em outros, alongar passivos pode ser mais estratégico do que acelerar expansão.

Há situações em que preservar caixa cria mais valor do que investir.

Essas não são decisões operacionais. São decisões estratégicas de alocação.

Conclusão

Empresas não quebram por falta de oportunidade, quebram por erro de alocação.

Quando o custo de capital sobe, a tolerância ao erro diminui. Quando o cenário macro muda, insistir na mesma estratégia é decisão, não inércia.

Estratégia empresarial, hoje, exige:

  • Leitura disciplinada dos indicadores econômicos
  • Clareza sobre retorno ajustado ao risco
  • Governança na decisão de investir, desalavancar ou preservar liquidez

Crescer deixou de ser o objetivo. Criar valor voltou a ser a prioridade.

E valor, em qualquer cenário, começa no custo de capital.

A pergunta que deveria estar na pauta do próximo conselho não é “quanto vamos crescer?”.

É: nosso planejamento já incorpora o novo regime de custo de capital?

Newsletter – Direção

Reflexões curtas sobre estratégia, decisões e estrutura para líderes e conselheiros.  Envio quinzenal, com conteúdo prático e aplicável ao contexto real das empresas em crescimento. 

Receba a Direção no seu e-mail: