Crescimento que destrói Valor

Cassio Crespo

Conselheiro | Head | Advisor | Mentor | M&A | Nexialista - Estratégia, Finanças e Governança

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Crescer não é difícil. Criar valor é.

Em muitas empresas, a expansão de receita e o aumento de EBITDA ainda são tratados como prova de sucesso estratégico.

Mas existe uma pergunta mais relevante: O crescimento está realmente enriquecendo os acionistas, ou apenas aumentando o tamanho da operação?

O erro silencioso

Toda estratégia consome capital.

Fábricas, tecnologia, aquisições, estoque, crédito, marketing. Nada disso é gratuito.

O capital tem custo. E quando o retorno gerado não supera esse custo, há destruição de valor, mesmo que o lucro e o EBITDA estejam crescendo.

O EVA (Economic Value Added), conceito desenvolvido por Joel Stern e G. Bennett Stewart, explicita isso:

EVA é o lucro operacional após descontar o custo de todo o capital empregado no negócio.

Se sobra valor depois de remunerar o capital, há criação de riqueza.

Se não sobra, houve destruição, ainda que os números operacionais pareçam positivos.

Naturalmente, o EVA não é a única métrica possível. Alguns preferem analisar ROIC versus WACC, TSR ou outras variações de lucro econômico.

Mas a lógica subjacente é a mesma: crescimento só cria valor quando o retorno incremental supera o custo do capital incremental.

E aqui reside uma nuance importante:

projetos estratégicos podem, no curto prazo, comprimir retorno e até reduzir o lucro econômico, mas fazer sentido quando analisados no ciclo completo de maturação. O erro não está no investimento paciente. Está na expansão estrutural que nunca supera seu custo de capital.

Onde a governança faz diferença

O papel do conselho não é apenas aprovar planos ambiciosos.

É assegurar que o capital esteja sendo alocado com disciplina.

Crescimento saudável responde a duas perguntas fundamentais:

  • Quanto capital adicional será necessário?

  • Esse capital será remunerado acima do seu custo?

Se o crescimento reduz o EVA, ele amplia escala, mas compromete valor.

Essa é a diferença entre governança formal e governança efetiva.

Modelos diferentes, riscos diferentes

Empresas intensivas em ativos precisam investir volumes relevantes para crescer. Se o retorno do capital adicional investido cair, o impacto no valor é imediato.

Empresas asset light conseguem escalar com menor pressão de capital, o que tende a favorecer a geração de EVA positivo.

O ponto não é o setor.

É a eficiência com que o capital é utilizado.

O papel do CFO

O CFO estratégico não apenas reporta resultados.

Ele protege o excedente econômico.

Perguntas:

  • Esse projeto aumenta ou reduz nosso lucro?

  • Estamos crescendo com qualidade financeira?

  • A remuneração executiva está alinhada à geração de valor ou apenas a volume?

Sem essa disciplina, crescimento vira conforto operacional.

Com ela, torna-se vantagem competitiva sustentável.

Quando o mercado cobra disciplina

Os questionamentos envolvendo o Banco Master e a pressão da 3D Investment Partners sobre a Toho Holdings revelam um movimento mais amplo: investidores sofisticados já não se satisfazem com expansão operacional. Querem compreender como o capital está sendo alocado, qual retorno incremental está sendo gerado e se o risco assumido é compatível com a rentabilidade esperada.

No fundo, o que está em jogo não é o tamanho da empresa, mas sua capacidade consistente de criar riqueza acima do custo do capital empregado.

Para CEOs e Conselheiros

EBITDA mostra eficiência operacional.

Mas eficiência, por si só, não garante criação de valor.

Crescimento amplia escala. Mas escala não assegura retorno adequado sobre o capital investido.

Empresas que prosperam no longo prazo não são as que apenas crescem.

São as que crescem com retorno superior ao custo do capital, de forma consistente, deliberada e ajustada ao risco.

Por isso, a pergunta estratégica não é: Quanto vamos crescer”

Mas: Estamos alocando capital com qualidade suficiente para fortalecer o valor da empresa ao longo do ciclo completo?

No fim, trata-se de maturidade de governança.

E essa maturidade se revela na forma como decisões de capital são tomadas, antes que o crescimento cobre sua conta.

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